Maio foi assim
Sobre a vida de imigrante, pertencimento e se sentir em casa
Vim para São Paulo passar um mês e aconteceu o mesmo de sempre: passou tão rápido que parece que foi só uma semana.
Faz 13 anos que eu moro fora do Brasil e me esforcei bastante para me integrar à cultura americana. Embora eu tenha me adaptado muito bem à vida de imigrante, nos últimos anos parece que eu tenho duas identidades distintas: a americana e a brasileira.
Com o passar dos anos, algumas partes de mim que já existiam, se instalaram completamente e outras foram aparecendo com o tempo e me tornando um pouco “gringa”.
Sempre fui pontual, mas nos EUA isso é esperado em todas as situações e inegociável. Eu fiquei mais quieta, reservada e não falo mais só pra ter assunto. Acho muito estranho beijar o rosto de alguém que acabei de conhecer (tipo muito). Gosto das coisas combinadas com antecedência, com hora para começar e acabar. Amo que não preciso confirmar se algo está “confirmado”, se você marcou, a pessoa estará lá, mesmo que tenha sido com 2 meses de antecedência. Adoro a assertividade da comunicação, não ter que florear ou fazer rodeios para dizer as coisas que precisam ser ditas.
Também não sou aquela brasileira que sente falta das coisas óbvias como arroz e feijão todos os dias, botecos, carnaval. Eu sinto falta do intangível, daquele pertencimento que você só sente quando sempre morou no mesmo lugar. De quem está inserida no dia a dia das pessoas que você ama. De saber das coisas em tempo real, de estar na festa de aniversário, no nascimento do filho da amiga de infância.
Acho que é por isso que quando eu chego em São Paulo, sou sempre engolida por uma agenda insana de compromissos e, nos últimos 5 anos, esse ritmo foi tão intenso que eu fiquei doente TODAS as vezes que vim para a cidade. Dessa vez, eu prometi que não faria isso. Tentaria manter a minha rotina, comer mais em casa, me exercitar e dormir cedo.
Pela primeira vez em muito tempo eu meio que consegui. Mas, ao final da estadia, a impressão que fica é a de que a minha visita foi meio improdutiva, não sei explicar. Me senti num limbo. Vi algumas pessoas, mas nem todo mundo que eu queria ver. Consegui fazer algumas coisas que precisava, mas nem de longe tudo o que gostaria. Ou seja: ao não me entupir de compromissos, vou embora com a sensação de que não fiz tudo o que queria/ devia.
Outra coisa que notei: por mais que eu ame ter um apartamento aqui, decorado com as coisas que eu mais gosto e uso no dia a dia tanto aqui, quanto em Los Angeles, São Paulo não é mais a minha casa, e isso sempre fica evidente a partir da terceira semana. Acho que porque eu sei que não moro aqui, depois de umas semanas eu começo a querer voltar para a minha "vida de verdade".
Para mim, essa é uma das coisas mais difíceis de morar fora, a sensação de que eu nunca mais pertenci a nenhum lugar completamente. Todas as vezes que venho para uma longa temporada, quero compensar pelo tempo que não moro aqui. É sempre uma dualidade, porque tento me inserir em um lugar que eu não pertenço mais, pelo menos não como antes. É como tentar vestir uma roupa antiga que não te serve mais. Você até tenta fazer caber, mas vai ficar desconfortável.
Essa foi uma visita diferente e que me inspirou a encontrar novos jeitos de existir na cidade, de fazer parte mesmo sem pertencer.
Não tenho um conselho ou uma resolução, mas sei que quem mora fora ou se mudou muitas vezes de cidade talvez me entenda. Ainda assim, consegui passar tempo com a família e com amigas antigas, estreitar o relacionamento com amigas novas, ir aos médicos que queria ir, além de vários programas culturais! Estou pronta para voltar para casa e aproveitar o melhor mês do mundo: o meu*!
*meu aniversário é dia 13 de junho.
VIAGEM
Uma coisa que eu tenho pensado há um tempo é o quanto eu não conheço do Brasil e da América do Sul. Quando comecei a ter dinheiro para viajar, nos meus vinte e poucos anos, eu priorizei a Europa e os Estados Unidos.
O dólar e o euro eram favoráveis na época e eu fiz muito bem de surfar nessa onda. O problema é que, quando alguns anos depois eu me mudei para os EUA, viajar pela América Latina ficou mais difícil por conta da distância.
Eu também me dei conta de que seria muito melhor visitar alguns destinos o quanto antes, enquanto ainda estou bem de saúde e cheia de energia. Foi por isso que nos últimos anos incluímos alguns lugares mais focados em natureza e aventura!
Decidimos ir para a Bolívia com uma breve passada pelo Atacama, no Chile.
Vou fazer um post inteiro sobre essa viagem, mas só o que posso dizer é que me surpreendi absurdamente com a Bolívia, um país que nunca esteve no meu radar.
SÉRIE
Seus amigos e vizinhos | Apple TV
Eu nunca leio nada sobre o que vou assistir, então não fazia a menor ideia do que se tratava essa série, mas tinha visto um meme circulando pela internet e, como amo o Jon Hamm, foi o suficiente para querer assistir.
Logo no primeiro episódio a minha sensação foi de uma mistura do filme Beleza Americana + Breaking Bad + White Lotus, ou seja, muito bom!
A série é divertida, mas também diz muito sobre a armadilha do status, sobre as escolhas das pessoas e os dilemas de alguém em plena crise de meia-idade.
Eu gostei muito de como a trama se desenrola e estou pronta para assistir à segunda temporada.
PODCAST
The Global Fertility Crisis is Worse Than You Think, com Derek Thompson e Jesús Fernández-Villaverde no Spotify
Eu já falei abertamente sobre a minha decisão de não ter filhos. Não foi fácil, mas foi extremamente bem pensada e ponderada por muitos anos.
Ainda que eu tenha tomado essa decisão, eu entendo que no cenário atual, em que muitas pessoas (grande maioria mulheres) estão indo para o mesmo caminho, isso passa a ser uma questão social que precisa ser pensada e discutida coletivamente.
Esse é um assunto que eu também quero dedicar uma edição inteira da newsletter para desenvolver melhor os meus pensamentos, mas esse episódio trata de algumas questões que pouca gente pensa quando decide não ter filhos.
Também é importante ressaltar que muitas das pessoas que não estão tendo não tomaram essa decisão ativamente. Algumas não conseguiram e outras nunca tiveram a oportunidade de começar uma família e isso também é um fator importante a ser considerado.
Eu também gosto de conteúdos que falam sobre fatos e não apenas sobre opiniões ou que fazem julgamento de valor em relação a um assunto e este entrega muito dado bom pra gente pensar.
Se você não fala inglês, pode ver pelo YouTube com legendas em português.
LIVROS
O que é ser homem, Scott Galloway
Desde que assisti à série Adolescência (Netflix) no ano passado, eu fiquei pensando nessa geração de meninos que nasceu mais ou menos em 2010. Mas, foi depois de ver o documentário Por Dentro da Machosfera (Netflix) que eu entrei em um hiperfoco e comecei a ler mais sobre o assunto.
Eu gosto bastante do trabalho do Professor Scott Galloway e decidi ouvir o livro que ele escreveu sobre ser homem (em inglês, no Audible).
O livro é uma mistura de memórias com manual de boas práticas e bom senso para homens, e a inspiração é essa nova geração a qual os dois filhos dele fazem parte.
O mundo mudou muito nas últimas duas décadas e, ainda que não pareça, os homens perderam muito do seu espaço e estão aprendendo a existir em um lugar que não é mais feito totalmente para eles. O “problema” é que isso gera questões que nunca precisaram ser pensadas antes, como qual é o papel do homem nessa nova sociedade?
Não é por acaso que tem crescido a quantidade de conteúdo red pill, que sempre existiu, mas agora é facilmente entregue para meninos de todas as idades nas redes sociais.
Eu também vou fazer uma edição especial dedicada a esse assunto porque eu acho que é importante que as mulheres se inteirem do que está acontecendo, principalmente as mães, tanto de meninos quanto de meninas.
ANNA, Amy Odell
Depois de assistir ao Diabo Veste Prada 2 eu quis ler a biografia da Anna Wintour, a editora chefe da Vogue que inspirou o livro que deu origem ao primeiro filme.
Eu não sabia muito sobre a vida dela ou sobre a influência que ela tem no universo da moda para muito além da revista.
É óbvio que ela é uma mulher extremamente competente e que tem um talento fora do normal, mas uma das coisas que mais me chamou atenção no livro foi o tamanho do privilégio que ela teve desde que nasceu.
Nem todo privilegiado usa seu privilégio para se tornar um ícone como ela fez, mas nesse caso, principalmente pela indústria a qual ela se destacou ser a de moda, todo o privilégio, contatos, dinheiro que ela teve fez TODA a diferença para o tipo de carreira que ela queria seguir.
E, no caso dela, o dinheiro é o menor dos privilégios. Muita gente esquece que conexões, capital cultural, acesso a certos espaços contam muito mais do que dinheiro em si. É que sem dinheiro, é muito difícil ter esse acesso, por isso até existe a tal da rinha de rico que o Michel Alcoforado fala no seu livro Coisa de Rico.
O novo rico precisa correr muito atrás do prejuízo para conquistar tudo o que vai além do dinheiro e que o rico de berço tem acesso desde que nasceu.
A outra coisa que fica muito clara é que ela se comporta como quase todo homem bem sucedido, mas sempre foi infinitamente mais julgada por ser uma mulher tendo essas atitudes.
É claro que existem muuuuitas camadas que separam as mulheres dos homens nos lugares de poder, mas depois de conversar com muitas mulheres ao longo dos anos eu entendi que são poucas as que têm a capacidade ou desejo de se tornarem uma Anna Wintour porque para chegar a certos lugares é preciso abrir mão de muita coisa que nem toda mulher está disposta a abrir (e isso é apenas uma observação e não uma constatação, julgamento ou crítica).
Mulheres geralmente são mais empáticas, pensam mais no coletivo, se preocupam mais com a opinião dos outros e essas características nem sempre são bem-vindas em ambientes ultra competitivos.
Eu gosto de conhecer a história de vida de pessoas que deixam sua marca no mundo ou que são referência naquilo que fazem. Embora a moda não seja um assunto prioritário na minha vida, é algo presente (você gostando ou não) no nosso dia a dia e eu adorei conhecer mais sobre essa figura tão icônica.
Heart the Lover, Lily King
Desde que parei de levar o meu celular para o quarto à noite eu estou sempre lendo um livro de ficção no meu kindle (não consigo ler livro físico na cama).
Como leio antes de dormir, eu procuro livros que não tenham muito suspense ou uma trama que me prenda ao ponto de eu não conseguir parar (eu sou meio sem limites quando isso acontece). A ideia é desacelerar o cérebro, relaxar e me preparar para dormir.
Por isso, o livro tem que ser bom o suficiente para que eu tenha interesse em continuar lendo, mas parado o suficiente para que eu fique com sono e esse é um exemplo bom dessa categoria.
Livro gostosinho com uma trama que prende o suficiente, mas que não te deixa desesperada pra saber o que vai acontecer e com um final muito satisfatório. Se você está procurando algo assim, eu recomendo.
ACHADOS
Sempre que eu estou no Brasil eu quero conhecer e testar produtos novos e aproveito para refazer o estoque das coisas que eu mais gosto de levar daqui para os EUA.
Aqui vai a minha listinha da vez:
LÚCIA | Drink sem álcool
Faz 3 anos e meio que eu não bebo uma gota de álcool e eu estava louca pra provar essa bebida que a minha amiga Monica Benini é uma das investidoras.
Tem muita bebida desse tipo em Los Angeles (a meca do wellness, né?), mas aqui no Brasil e em outros lugares ainda está começando e esse é um mercado que eu estou de olho porque vai crescer cada vez mais.
Eu não sinto falta alguma do álcool em si, mas quando estou recebendo pessoas em casa eu sinto falta de tomar algo em um copo bonito, sabe? Segui a dica da Mô e tomei com um cubo de gelo grande e acrescentei uma lasca de casca de laranja pra ficar com uma vibe de Negroni!
VIC BEAUTÉ | Máscara de sobrancelhas
Essa é a melhor máscara de sobrancelha do mercado, na minha opinião. Eu uso tanto a transparente quanto a marrom escura e adoro as duas.
O pincel é perfeito, a marrom deixa a sobrancelha mais cheia e a transparente cola tudo e não sai do lugar por nada! Sempre levo um estoquinho.
É isso! Tô muito animada pra junho, pro meu aniversário, para a Copa do Mundo e verão em Los Angeles!









Adorei a newsletter e espero que goste muito do Atacama. Tudo lá é lindo, a comida é boa, o povo é tão querido, tão fofinho.
Ansiosa pelos relatos desta viagem! =)
Adorei! Eu estou morando nos Estados Unidos desde 2024 porque meu marido foi transferido a trabalho, e você resumiu muito bem o meu sentimento quando vou ao Brasil. Eu passo um mês lá e me sinto engolida e com a sensação de que não fiz tudo. E a sensação de não pertencer mais ali, é certa! E olha que não estou aqui há tanto tempo. Amei a indicação de livros, séries e de produtos! Me senti lendo uma coluna numa revista bem bacana!