A "algoritmização" da vida
E a dificuldade em saber quem está treinando quem.
Recentemente eu me dei conta de uma coisa perturbadora: eu tenho medo de clicar em links.
Parece ridículo, mas é verdade.
Às vezes eu vejo um vídeo que me desperta curiosidade. Um único vídeo, sobre um assunto que eu nem tenho interesse, mas só quero ver aquele vídeo específico, e eu hesito antes de apertar o play porque sei o que vai acontecer: meu algoritmo vai ser contaminado por aquele tema.
Vou abrir o Instagram amanhã e vai estar lá, em todos os anúncios. O YouTube vai me sugerir dez vídeos parecidos. O Pinterest vai ser dominado pelo tema. De repente uma curiosidade passageira virou uma perseguição digital.
Por causa disso, eu desenvolvi uma espécie de autocensura para proteger a minha versão que eu não quero que o algoritmo conheça. Com isso, acabei me tornando uma voyeur digital e isso me deixa triste.
Eu parei de interagir com conteúdos, dar likes, comentar, tudo porque quero tentar ter um pouco mais de controle sobre o que aparece na minha tela.
Com a intenção de tentar proteger a minha autenticidade, eu acabei abrindo mão da minha espontaneidade.
Já faz bastante tempo que eu adotei esse comportamento, mas ele ganhou mais força depois que eu decidi limitar meu uso de Instagram. Mas, ao sair do Instagram, eu percebi que o problema estava em toda parte.
Uma das minhas formas favoritas de sair um pouco da vida digital é ler. A leitura é meu refúgio, só que eu gosto de ler no Kindle (digital, eu sei) que como tudo o que é digital, também tem um algoritmo.
Como tenho pesquisado temas que considero importantes para o meu novo curso, acabei caindo em uma espiral sem fim de livros sobre maternidade.
Começou com The Baby Decision. O algoritmo viu que eu terminei de ler e me sugeriu The Baby Matrix. Comecei a ler e achei extremamente tendencioso e enviesado… parei de ler.
Aí veio Selfish, Shallow, and Self-Absorbed, achei o título provocativo e comprei também! Nos primeiros capítulos já vi que é exatamente o tipo de livro que, na minha opinião, esvazia a causa de quem escolhe não ter filhos e que o título não era ironia, era a descrição real das pessoas… também parei.
Ou seja, comprei 2 livros que não gostei, perdi pelo menos 3 horas lendo por influência de um algoritmo que achou que sabia os temas que eu queria ler.
Hoje em dia, é quase impossível saber se nossas opiniões e desejos são realmente nossos porque estamos o dia todo online.
Todas as plataformas que eu mais uso funcionam com algoritmos: Kindle, Audible, Spotify, Netflix, Instagram, Pinterest, lojas online. Já faz tão parte do nosso dia a dia que nem sei se a gente ainda percebe que está sendo constantemente controlado.
Eles observam o que você faz, inferem o que você quer e te dão mais daquilo.
O problema é que o algoritmo não distingue curiosidade de interesse e desejo real. Esses dias eu estava pesquisando umas coisas de bebê para presentear uma amiga e, “do nada”, comecei a ver produtos de bebê nas minhas recomendações da Amazon que já assumiu que eu devia estar grávida.




