Julho parece que teve 48 dias.
A Copa ainda estava acontecendo até o dia 19, mas na minha cabeça, a final foi há uns 3 meses.
É estranho escrever isso porque, nos últimos anos, eu tenho a sensação oposta, de que o tempo está passando rápido demais. Num nível que me assusta, já que eu amo a vida e quero que ela passe mais devagar.
Mas quando eu penso neste julho, a sensação é que ele durou uma eternidade e eu não pude deixar de refletir.
O que fez julho passar tão devagar e como eu posso fazer com que o mesmo aconteça com os próximos meses?
Meu primeiro instinto foi achar que é porque muita coisa aconteceu.
Fui pra Nova York no meio do verão (amo), encontrei uma das minhas melhores amigas e meu afilhado, vi o Brasil jogar, fui ao meu segundo show do Bon Jovi depois de 30 anos.
Mas também teve conversas difíceis, uma decisão pesada e muitas lágrimas.
Tive uma alergia nos olhos que durou três semanas, uma tosse que já vai fazer aniversário de um mês e uma infestação de ratinhos “silvestres” no quintal.
Fiz amigos novos, me aproximei de outros e aceitei que algumas pessoas, por mais incríveis que sejam, não cabem na minha vida.
Realmente, muita coisa aconteceu, mas se você leu a minha newsletter Maio foi assim, vai lembrar que a sensação foi oposta, a de que o mês passou em uma semana.
Eu também fiz muitas coisas em maio, inclusive tirar férias, mas a sensação foi totalmente diferente. Por quê?
A conclusão a que eu cheguei foi que em maio eu estava ocupada demais para notar a vida acontecendo, mas em julho eu estava presente.
Julho pareceu longo não porque teve muitas experiências, mas porque eu vivi intensamente todas elas e não fui só tirando tarefas da frente, como em maio.
Cada acontecimento criou uma lembrança viva atrelada a um sentimento importante, mesmo nas situações difíceis.
Os meses não desaparecem porque não estamos fazendo o suficiente, pelo contrário, é porque não paramos um segundo para observar ou criar uma memória que vai marcar aquele dia de alguma forma.
Quantas horas estão sendo consumidas por tarefas que mantêm a vida funcionando, mas não necessariamente sendo vivida?
As conveniências do mundo moderno deixam a rotina mais eficiente, e é justamente isso que dispensa o cérebro de prestar atenção. Para funcionar, ele prefere o familiar e o previsível.
O problema é que eficiência e memória quase não andam juntas, e foi assim que eu fui perdendo a capacidade de criar essas memórias no dia a dia.
É preciso estar atento para estar presente e é preciso estar presente para criar memórias.
Talvez o problema não seja que o tempo está passando mais rápido, mas nós é que estamos passando rápido demais por ele.
Agora, vamos às indicações do mês!
FILMES
Eu e o Mark fomos assistir A Odisseia no fim de semana de estreia. Nós somos fãs do Christopher Nolan e estávamos muito animados.
Não cheguei nem aos 40 minutos de filme e fui embora do cinema.
A primeira pergunta que as pessoas me fizeram quando eu disse isso foi: “mas o cinema era IMAX?”, “Ah, é que tinha que ver no IMAX”.
Não, eu não vi no IMAX e, sinceramente, não acho que teria feito diferença.
Eu vou dar uma segunda chance quando puder assistir na minha casa, mas não senti que valia passar 3 horas da minha vida num cinema num lindo sábado de verão.
Por causa da nossa frustração, eu e o Mark começamos a conversar sobre a crise que assola Hollywood, nossos filmes favoritos, quais tínhamos vontade de assistir de novo e como é difícil escolher algo para assistir quando você senta na frente da TV.
Com tudo isso em mente, decidimos fazer uma lista de filmes entre clássicos, superaclamados, melhores de todos os tempos e outros que gostaríamos de rever juntos.
A ideia é, sempre que der vontade de assistir algo, a gente pegar o primeiro da lista, sem ficar escolhendo muito e nos deixar surpreender.
O primeiro que assistimos foi…
Encontros e Desencontros, Sofia Coppola (2003)
Tanto eu quanto o Mark assistimos ao filme quando ele foi lançado em 2003.
Na época, eu me lembro que saí do cinema não entendendo muito qual era o hype. Tinha 22 anos, recém-formada na faculdade e sem muita bagagem cultural acumulada na vida para poder fazer uma leitura mais filosófica ou artística.
Ver novamente aos 45 anos trouxe uma perspectiva bem diferente.
Na primeira vez, só o que eu consegui enxergar era um homem patético de meia-idade dando em cima de uma menina de 22 anos (idade que eu assumi que ela tinha porque a personagem acabou de terminar a faculdade).
Agora, eu consegui enxergar as nuances e a profundidade do que estava acontecendo nas entrelinhas, como a solidão que ambos sentiam enquanto viviam a vida que outras pessoas consideram bem-sucedida.
Também achei interessante o paralelo que existe entre a crise existencial de quando você termina a faculdade e sente que aquilo é o começo do resto da sua vida e que se repete na meia-idade, quando você já conquistou o que queria (ou não) e se pergunta como será o resto da sua vida.
A conexão entre os dois acontece exatamente nesse lugar e o Japão adiciona mais uma camada, porque os deixa perdidos também num lugar e numa cultura difíceis de acessar de fora, ainda mais no início dos anos 2000.
Minha crítica principal é à forma como eles mostraram e trataram o Japão. Eles tiram sarro do sotaque, fazem piadas xenofóbicas e não fazem a menor questão de mostrar nada da cultura desse país maravilhoso que é o plano de fundo da trama.
A cidade é tratada como um lugar desorientador que é apenas mais um inconveniente ao que os personagens estão vivendo.
Ao mesmo tempo, é bom ver o quanto evoluímos nesse sentido e que hoje seria absolutamente inaceitável algo assim!
Mulholland Drive, David Lynch (2001)
Nem eu nem o Mark nunca tínhamos visto nada do David Lynch.
Decidimos começar por Mulholland Drive e MEU DEUS eu nem sei o que falar. Não é força de expressão, eu não sei mesmo.
Conversamos um tempão depois que o filme acabou, mas é difícil trazer essa conversa para cá sem o contexto.
Eu gostei muito da experiência de assistir, mas é um filme totalmente fora de tudo o que eu estou acostumada e acho que por isso valeu tanto a pena.
A experiência de ver esses dois filmes mais antigos tem sido muito interessante, ainda mais por serem filmes cult.
Fazia tempo que eu não via nada que me provocasse dessa forma (acho que o último foi Pobres Criaturas).
Nosso repertório anda tão influenciado pelos algoritmos, tudo parece tão igual ultimamente, que ver coisas que causam estranheza, desconforto, surpresa e desfechos não óbvios tem sido muito interessante.
LIVROS
Eu estou sempre lendo pelo menos um livro de ficção e um de não ficção sobre algum assunto que me interessa. Mas esse também foi um mês atípico nas leituras.
Eu comecei pelo menos uns 5 livros que não continuei, ou porque não me pegou, ou porque não achei que o assunto fosse relevante ou bem pesquisado/escrito. Até que eu encontrei um que eu AMEI demais!
Se deus me chamar não vou, Mariana Salomão Carrara
Que livro incrível! Está entre os meus favoritos desse ano.
É curto e relativamente simples, já que é escrito sob a perspectiva de Maria Carmem, uma menina de 12 anos.
Ela soa como uma criança que, ao mesmo tempo que te transporta de volta para a sua adolescência, fazendo você lembrar das coisas que aconteceram com você, traz reflexões muito profundas sobre essa fase da vida e o quanto ela acaba influenciando diretamente no tipo de adulto que você pode se tornar.
Eu queria dar um abraço bem apertado na Maria Carmem e dizer para ela que vai ficar tudo bem, mas será que vai mesmo? Foi isso que o livro mais me fez pensar.
Para muita gente, o sofrimento começa cedo demais e deixa marcas difíceis de apagar, ainda que você se esforce muito.
A criança que aprende que é inadequada não desaprende isso com um abraço. Ela passa a vida confirmando ou lutando contra aquela sentença. O abraço não conserta, mas talvez seja a única coisa que ela precisava de verdade e não teve.
Não passa pela cabeça dos adultos que a cercam a profundidade dos pensamentos que ela tem sobre si mesma e sobre o mundo, mas o texto não é nada forçado, é condizente com o repertório de uma menina da idade dela, mas nem por isso banal ou “coisa de criança”.
Eu não passei pelas mesmas questões que a Maria Carmem, mas também era uma menina que pensava profundamente sobre as coisas e buscava algum alívio na escrita.
Até hoje, a escrita é um ato terapêutico para mim. Aliás, essa newsletter saiu atrasada justamente porque ela gerou tantas reflexões internas que eu escrevi umas 3 páginas que não foram publicadas, mas precisavam ser escritas.
Espero que agosto, um mês que eu aprendi a gostar muito depois que me mudei do Brasil por ser o auge do verão, também passe devagar!






Queria só agradecer por essa frase aqui: "É preciso estar atento para estar presente e é preciso estar presente para criar memórias." Não estive presente em um momento que aguardei muito esperando o outro momento que aguardei muito. Esse segundo momento não chegou e eu tenho poucas memórias do primeiro. Muito obrigada! Anotado a mão no diário para não esquecer.
Me abriu um sorriso quando li aqui Mulholland Drive :) Em 2004 aos 19 anos eu tinha uma pequena video locadora na minha cidade. Eu comprei esse filme, assisti e lembro de ficar boquiaberta e feliz por ter gostado de um filme tao cult. Eu sempre recomendava para os clientes, mas ele nao saia muito. Quando vendi a locadora, lembro de ficar com ele para a minha "coleção", mas eu deixei praticamente todos as minhas coisas pessoais no Brasil quando me mudei para os Estados Unidos e nunca mais vi meus VHS's. O outro filme que eu tinha e AMO até hoje é o Natural Born Killers, do Oliver Stone, com Woody Harrelson & Juliette Lewis ❤️